Publicado por: diariodebloco | abril 10, 2010

cavar e cavar

quinta-feira, 19h00, Morro do Bumba, Niterói.

cavar – Conjugar

v. tr.1. Romper ou revolver a terra com enxada ou instrumento análogo.
2. Tornar côncavo.
3. Sulcar.
4. Extrair da terra (cavando).
5. Abrir cavas em (a roupa).
6. Fig. Procurar.

Acho que a melhor forma de definir o Morro do Bumba é cenário de guerra. A estrada que dá acesso ao local, cercado por um vale tomado por favelas, ganhou um ar característico de Vietnã. A primeira coisa que vi foram helicópteros militares sobrevoando baixo, assim como viaturas da PM circulando, carros de bombeiros, Defesa Civil, agentes de saúde e caminhões caçamba. Uma poeira foi levantada pelo vento e se transformou numa neblina assombrosa e turva. O barulho mais ouvido é dos motores dos veículos, junto de uma série de vozes acumuladas dos curiosos. Os carros da imprensa não podem passar por um cordão de isolamento logo no início da rua, mas os jornalistas e os moradores tem circulação livre. Mais próximo do deslizamento, um cordão separa a área de trabalho dos bombeiros de todo o resto. E é ali, na pequena área, que ficamos o tempo todo.

O Morro do Bumba virou o epicentro do desastre no estado do Rio por causa do efeito lixão. Os ambientalistas disseram que ali só foi pior porque o terreno era o tal lugar que recebia entulho há pelo menos vinte anos. O problema talvez também tenha piorado por causa dos gases provocados ao longo das duas décadas pelo chorume. Gás metano junto do deslizamento igual a BUM. E é bem isso que dá impressão. A terra onde as mais de 60 casas desmoronaram é preta. O cheiro insuportável. É muito triste estar ali e ter de retratar para o resto do país a situação da favela.

Ouvi a história de uma senhora que conseguiu cavar com as próprias mãos uma amiga. Minutos depois da explosão que todos ouviram, moradores se reuniram para ajudar as primeiras vítimas. Ela, junto de sobrinhos, genros, amigos e vizinhos, subiram na terra imunda para cavar conhecidos do fundo da terra. Cavar. Esquecendo um pouco as discussões políticas, ambientais e sociais normais quanto a existência de uma favela naquele lugar, o verbo cavar foi a coisa mais dita por pessoas que sobreviveram ao desastre. Passei horas ali contabilizando mortos, feridos e modos de se usar o verbo cavar para se contar uma história de heroísmo e tristeza.

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Publicado por: diariodebloco | abril 10, 2010

o dia depois de tudo

quarta-feira, 14h00, Santa Teresa, Morro dos Prazeres

Os efeitos da chuva, assim como os mortos, começaram a ser contabilizados nos dias seguintes à tempestade. Na Redação era assustador contabilizar a quantidade de vítimas diante do temporal dessa semana. O Rio de Janeiro nunca havia sentido de forma tão forte as consequências do aguaceiro. No Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, a cidade começava a perceber a imagem da tragédia. Um deslizamento de terra havia levado cerca de cinquenta pessoas no desabamento de uma encosta. A favela estava de luto e isso a gente percebeu logo quando chegou. Na entrada do morro, dizeres do tráfico de drogas e pessoas mal-encaradas. Dá pra entender o que achar da mídia naquela hora? Subíamos a favela imaginando o que encontrar. Virando uma esquina repleta de casas feitas de tijolo, um grande deslizamento lambia a pista com lama e destroços. No meio da terra, um carro táxi. Ou parte dele.

No alto do morro, onde ocorreu a pior queda de barreira, retroescavadeiras já trabalhavam arduamente contra o tempo. Apesar de uma grande porção de horas já terem passado, ainda havia esperanças na cabeça dos familiares das vítimas. Elas falavam a todo momento que alguém poderia ser salvo. Os olhos marejados acompanhavam cada gesto e movimento dos bombeiros em cima da terra. Prédios com 4 a 5 andares estão por todos os lados na rua onde a encosta desceu. Mas os andares acima do pavimento térreo geralmente são réplicas dos andares abaixo de cada construção. Os moradores mais antigos transformaram suas casas em pequenos prédios, mas sem nenhuma estrutura técnica adequada. Isso se repete em todas as favelas do estado. E não é nenhuma novidade que as defesas civis municipais não tenham acesso a esses lugares por causa da criminalidade. Enquanto entrevistas eram feitas com moradores, jovens passavam de moto em alta velocidade. Nos muros, as letras C e V.

Publicado por: diariodebloco | abril 10, 2010

parado no escuro

terça-feira, 09h40, Largo da Carioca

Quem olhava por fora a estação do metrô no Largo da Carioca até pensava, “Nossa, que lugar vazio, vou entrar e me dar bem!“. Mas andar debaixo da terra em dias que se chove muito não parece algo animador. Nos dias normais o metrô do Rio de Janeiro já naturalmente entra em colapso, imagina então no dia que chove 200 milimetros de água de uma vez na cidade? Dentro da estação, me dirigi ao sentido Zona Sul para pensar um pouco como iria me resolver naquele péssimo dia. Na plataforma, algumas pessoas já se aglomeravam fugindo do centro da cidade em direção de casa. Vi gente chorando ao celular. Comecei a pensar em um monte de coisas horríveis quando ouvi um barulho do vagão se aproximar pelo túnel. Ventava e fazia frio.

A composição parou e entramos. Tive a sensação de que ia me enfiar numa lata de sardinhas. As pessoas adoram serem empurradas e fazem questão de compartilhar desse momento insano com você. Me posicionei estrategicamente e a pressão do movimento do trem começou. Estavamos fugindo do caos para o outro lado da cidade. Passou-se 15 minutos até que o vagão freiou. Não foi brusco, mas algumas pessoas caíram sobre outras. Antes dele ficar totalmente parado, a luz do trem piscou. Nesse momento meu coração gelou e uma onda de nervosismo tomou conta de todos. As pessoas estavam até calmas diante de todo o colapso do sistema de transportes da cidade. Mas de repente, os passageiros se viram impotentes do que estava pra acontecer. Uma voz surgiu pelos alto-falantes.

– Senhores, peço desculpas pela interrupção da composição, mas infelizmente uma outra composição na nossa frente quebrou. Teremos que aguardar ela ser removida para seguirmos.

Olhei pelo vidro e vi o breu lá fora. Estavamos parados dentro da galeria, o túnel totalmente escuro e… sem saída. Uma maravilha. De acordo com o maquinista estavamos entre as estações da Candelária e da Glória.

As pessoas começaram a ficar irritadas depois de dois minutos. Aos dez, estavamos todos tentando se comunicar com parentes e amigos. O celular de alguns não pegava e o rádio estava fora do ar. Vi um homem de chapéu começar a cantar uma música evangélica, enquanto isso uma senhora bem baixinha fazia uma oração segurando com a mão esquerda uma bíblia de bolso. Um grupo de adolescentes se preocupavam mais em mandar torpedos pelo celular e outro grupo conversava sobre futebol. Uma senhora de uns 60 anos, sentada na minha frente, enfiou o rosto nas duas mãos e desabou a chorar.

40 minutos depois a composição saiu do lugar.

Publicado por: diariodebloco | abril 7, 2010

péssimas decisões

terça-feira, 09h00, Lapa

Depois de contar a fuga de pelo menos cinco pessoas do meu ônibus, ambas decidadas bravamente a caminhar pela Ponte rumo a sabe-se lá onde, o ônibus entrou em uma espécie de transe coletivo. Ninguém sabia se andávamos ou se flutuávamos. Poderia ser o efeito de um chocolate estranho que alguém me ofereceu naquela situação de estresse generalizado, num perfeito ato de generosidade humana em meio ao caos. Quando o relógio bateu nove da manhã, o prefeito Eduardo Paes profetizava pela CBN:

– Não saiam de casa. Se saírem, voltem para suas casas. Não andem pela rua. Não trabalhem hoje.

Tentei me confortar com a idéia de que seria impossível retornar naquela manhã. Depois de quase três horas patinando em cima da baía de guanabara, o ônibus conseguiu alcançar o elevado da perimetral. Eu nunca imaginaria que estaria feliz dentro de um Leme na Perimetral… mas enfim. Acabei descendo no bairro do Flamengo disposto a ir a pé pela Lapa até a TV. Algumas ruas, pude notar, pareciam ter recebido duzentos blocos carnavalescos na noite anterior. O lixo se acumulava pela calçada, meio fio, asfalto e jardins. Mas o pior ainda estava por vir. Cruzei os arcos imaginando porque as pessoas andavam na minha direção oposta com cara de pânico.

A chuva havia transformado a parte boêmia do bairro em uma imensa piscina de bolinhas. Só que no lugar da brincadeira de plástico, haviam toras de madeira boiando, sacos imensos de lixo rodopiando em bueiros, carros inundados, pessoas com água até a cintura, bares, farmácias, postos de gasolina e uma incrível quantidade de casas afogadas no quadrilátero Riachuelo, Inválido, Gomes Freire, adjacentes. Andei por quatro quarteirões tentando alcançar a rua do meu trabalho. Aí veio a idéia. Ou eu me jogava na água imunda pisando em lixo e, no azar, em bueiros, ou eu apelava para algum veículo maior na base da carona. Foi quando um ônibus sabe-se lá da onde surgiu buzinando.

– Vai pra lá, moço?
– Vai!
– Então bora!

Primeira péssima idéia do dia. Fui e voltei de Veneza em 2 minutos, conforme comprovam o video a seguir.

O motorista fez o favor de retornar depois da grande quantidade de maravilhas que ele gritou para os ônibus atrás dele. Saltei na Carioca disposto a pegar o metrô para ir a Copacabana, na Zona Sul e, talvez, pensar no que fazer naquele dia maldito. Pegar o metrô? Mais uma péssima idéia no 6 de Abril.

Publicado por: diariodebloco | abril 7, 2010

presos na ponte

terça-feira, 04h30, Niterói

O alarme do despertador nem precisou tocar na madrugada.

Acordei com o barulho da chuva mesmo. “- É, tá chovendo ainda.”, pensei. Meu pai não havia chegado do Rio e alguma coisa muito séria havia se instalado na cidade. Aos poucos, o sinal do caos começou a soar quando resolvi sair de casa em direção ao trabalho. Ainda em Niterói, não havia uma forma de atravessar a Ponte. As pessoas iam chegando aos poucos nos pontos de ônibus e imaginando o que realmente a tal chuva da madrugada havia causado. Não havia ônibus. Ninguém imaginava o tamanho do problema até três ônibus da viação 1001 se aproximarem em fila, pararem e um fiscal franzino se aproximar. Ele cochicha algo para o motorista do primeiro carro, dentro de um ônibus com o visor “TURISMO” piscando feito um painel de Las Vegas, daí grita:

– QUEM VAI PRO GALEÃO? Sobe aqui!.

Epa.

Bad feelings. Os ônibus estavam oficialmente sem itinerário, e isso eu percebi imediatamente depois que subi em um deles. Paciência. Já no Centro, carros voltavam na contramão sinalizando algum problema mais à frente. Ou era um deslizamento de terra, fato esse que se comprovou ainda naquela hora em dois bairros da Zona Sul, ou eram imensos bolsões d’água que impediam a passagem dos carros. Demorei cerca de 40 minutos pela cidade atravessando ruas que nunca fizeram parte da rota convencional. Ainda sonolento e imaginando que seria apenas ali que o problema se instalara, tive um susto quando alcançamos a Ponte Rio-Niterói. Carretas e mais carretas se aglomeravam no sentido Niterói, tentando, em vão, passar pela Avenida do Contorno, rumo ao Norte pela BR-101. Os veículos entupiam a via ao mesmo tempo que carros, caminhões e ônibus descansavam sem saber o que fazer. Ou melhor, para onde ir. A via sentido Niterói estava fechada. A impressão inicial era que estavam todos ali parados desde a madrugada. Pude notar que alguns passageiros desciam dos carros ainda no vão central e tentavam voltar para a cidade a pé. Parecia uma daquelas cenas de filme bem clichê em que as pessoas geralmente abandonam os veículos e decidem utilizar as pernas para fugir do Jason, de um dinossauro, uma nave extraterrestre, ou sei lá… da inofensiva chuva.

Muitos minutos depois, tive uma pontada de felicidade. Naquele momento, o meu ônibus voava espantosamente em direção ao Rio. Alegria rápida. Na chegada ao Gasômetro, a Polícia Rodoviária Federal decide interditar a via expressa para evitar acúmulo de carros na chegada à capital. A causa era os bolsões d´água gigantes que inundaram a Avenida Brasil e a Francisco Bicalho interrompendo o trânsito nas duas entradas da capital.

Início dos problemas desse dia.

Publicado por: diariodebloco | abril 7, 2010

o caos acordou de noite

segunda-feira, 21h00, Gávea.

Eu nunca imaginaria o que estava pra acontecer nas horas seguintes, mas realmente eu vivi o que boa parte da população fluminense viveu no início desta semana. Me senti um lixo – desses que boiaram por aí por diversas ruas da cidade – me senti também meio herói com essa coragem idiota de sair no meio do caos, mas também me senti derrotado, assim quando me senti muito cansado. A volta para cidade de Niterói, na Região Metropolitana, já se anunciava como uma imensa batalha contra a implacável chuva do Rio.

Quando o relógio bateu 9 da noite naquele dia, o ponto de ônibus do bairro da Gávea parecia um campo de refugiados de alguma guerra não anunciada. Estudantes e trabalhadores se amontoavam à espera de um ônibus como se fossem desabrigados à espera de um prato de comida na frente de um abrigo religioso. Fato esse – a chegada do busão – que só foi ocorrer às 23h30. Até aí, pensei bem, apenas a imprensão de uma segunda-feira com muita chuva no fim de noite e seus habituais nós no trânsito. Mas o temor de que tudo era muito pior do que se imaginava surgiu quando o motorista do nosso ônibus decidiu dirigir pela Lagoa. O-caos. Primeiro os motoristas passaram a utilizar a ciclovia da Rodrigo de Freitas como via expressa. Por um segundo vi uma pessoa que se arriscava pela água escura no breu da noite quase ser atropelada. A partir daí, ruas de Botafogo estavam inundadas, com ondas se formando assim que os carros passavam. Mesma situação lá do outro lado da Baia de Guanabara. Chegar até Niterói demorou cerca de duas horas. Deitei na cama às 01h30 com a informação de que meu pai não retornara do Rio. Estava preso dentro na faculdade. Ele e mais 60 estudantes.

Lá na Avenida Maracanã.

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