Publicado por: diariodebloco | novembro 26, 2010

um passo de cada vez para guerra


imagem Agência O DIA

Quarta-feira,
13h40.

Saímos da Redação ouvindo o rádio ainda apitar em nossos ouvidos. A equipe está animada mesmo para dias como aqueles. É preciso um pouco dessa adrenalina para fazer movimentar a engrenagem da criatividade, da superação e da atenção no corpo. Estar na rua cobrindo um dia de caos não é fácil, mas depois de horas contabilizando ataques e registrando atentados de diferentes formas, ficamos meio pelejados já. O couro batido, essas coisas. O carro voa pela Avenida Brasil – ou tenta, devido ao trânsito pesado da via expressa. Pelo horário, o fluxo não deveria ser aquele, mas a cidade está vendo sua rotina mudar devido à violência espalhada. Pessoas saem mais cedo do trabalho, estudantes tem suas aulas encerradas, todo mundo decide voltar pra casa antes da hora normal. 50 mil pessoas em média estão se movendo no horário atípico.

14h29

Chegamos ao ponto marcado em algum lugar muito longe da Zona Norte. Avistamos um carro enfumaçado, que naquele momento é praticamente só o esqueleto da carcaça. O veículo no meio da pista paralela à avenida, na entrada de uma favela, denuncia: mais um atentado com fogo. Dessa vez o crime organizado foi mais prático. Bastou alguns minutos ouvindo os donos do carro contarem a história para o enredo se formar na cabeça. Eles explicam que foram avisados pela seguradora sobre o encontro da PM com o carro queimado. Imediatamente são cercados por nossos microfones.

O dono é um pastor evangélico, foi roubado no dia anterior durante um arrastão. Os bandidos apenas levaram o carro para fora da favela e atearam fogo. Fechamos a entrevista com um “Deus segura quem…”. Não ouço o resto. O rádio apita, mais um atentado em outro canto da cidade. Corremos erguendo câmera, tripé e fôlego.

15h45

Ponho a cabeça para fora do carro e vejo o céu encorpando. As nuvens pesadas já começam a tentar intimidar uma chuva chata e pesada. Está quente, abafado, uma merda. O motorista decola e chego a conclusão que não seríamos nada sem um bom volante naquela hora. Ele ri quando a gente elogia. A informação que temos naquele momento é de um arrastão, mas não se sabe se teria outro carro incendiado no meio disso tudo. Também temos que cobrir uma coletiva da Secretaria de Segurança. Mil coisas em poucas horas, é o único jeito. Nossa equipe se aproxima da região carente de Vigário Geral para ganharmos acesso a outra região da cidade. Estamos próximos da Estação de Trem da concessionária Supervia. Vejo um carro de socorro do Samu mais à frente. O motorista enxerga um carro da polícia civil junto. O velho beliscão estala junto da sensação de algo no ar. Decidimos nos aproximar.

A blitz se revela como um crime. Mais um. Basta alguns passos para enxergar a cena do crime. Um carro Fiat com um homem de boca aberta e olhos semicerrados. Na testa, dois tiros. Cheguei a pensar que eram três, outro na barriga, devido a enorme poça de sangue. Há gente da polícia civil por todos os lados, de legistas a inspetores da Divisão de Homicídios. Recolhemos algumas informações sobre a pessoa morta. Comerciante, teria reagido ao tentar fugir de um ataque de criminosos da favela de Vigário Geral naquele ponto. Aliás, estamos a pouquíssimos metros da comunidade, me lembro, tentando buscar refúgio em uma parede. Os bandidos teriam levado um caminhão durante a ação. Em alguns segundos, o delegado alerta.

– Tem criminoso apontando arma pra cá de cima da avenida. Cuidado aí.

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Responses

  1. puta que pariu!


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