Publicado por: diariodebloco | novembro 26, 2010

reflexão no silêncio

Quarta-feira, 22h25.

A chuva despista meu olhar. É noite. A novela já acabou faz tempo e o eco das televisões ligadas pela cidade não reproduzem mais as falas dos atores. Abro a janela do carro de reportagem e o calor do verão carioca se traduz em um abafado chuvoso no meu rosto. No breu do subúrbio do Rio, as luzes dos giroflex dos carros de polícia que seguimos pela Avenida Brasil colore a cidade em cores estroboscópicas. A cidade está deserta. As calçadas, as ruas, o comércio. Tudo fechado. E não é por causa do horário não, é por causa dos fatos.

Passeio meu olhar pelas anotações do dia num bloquinho adaptado com folhas de rascunho. Não fico pasmo com que leio nos rabiscos do dia. Ali, naquele momento, me sinto parte de um todo já anestesiado em nosso estado. Como não me impressiona o que vejo, acompanho, anoto, leio, transmito? Somos todos reprodutores do caos, inertes à injeção dessa adrenalina viral que qualquer mortal se preenche pelo que passamos. Às vezes paro e penso que nem a própria população se desfaz nessa sensação. O medo e o terror já foram tocados por tanto tempo no Rio que o conta gota da violência amorteceu as dores da guerra. Os ataques não beliscam mais. Estamos banalizados no costume de cobrir guerra urbana, é verdade. Mas algo nesta semana soou diferentes mesmo pros lead’s policiais dos jornais e das bombásticas chamadas televisivas.

O grande dia tinha chegado.

A onda de violência cresceu em ritmo concomitante. Desde o final de semana, os arrastões deram lugar aos carros sendo queimados durante os roubos. Dos carros queimados em arrastões, para carros queimados em qualquer ponto da cidade, por qualquer motivo. Dos carros para os ônibus foi um pulo. De veículos em combustão para bombas em lugares públicos um passo muito menor e mais rápido.

De um pulo, as viaturas do comboio que seguimos estancam de repente em algum canto do bairro do Méier. Nossa atenção se prende à frente e estacionamos o carro para averiguar. Os policiais chegaram até o batalhão do bairro e trocam informações com seus colegas. Na rua, apenas um bar ainda aberto, com poucos clientes se embebedando. A conversa do botequim se enfia num maciço hilariante sobre futebol. É quarta-feira de noite, dia de jogo. Nada como o futebol num dia desses. Para eles, penso. A chuva aperta e buscamos refúgio numa marquise fuleira. A água me ensopapa o colarinho e meu bloco vai embora, dando ‘tchau’ em pedaços.

Fico ali vendo a água encharcar nossa equipe. Um trovão preenche o céu e os segundos parecem lentos demais para um dia como aquele. A memória cavuca as últimas horas e elas retornam de repente remontando nossos passos.

Anúncios

Responses

  1. ficamos anestesiados por segurança própria. é defesa do ser humano. porém não nos conformamos… voce é prestador de serviço, vc carrega a informação ao mundo, arriscando sua própria vida. não é fácil não, tem que ter coragem e se desligar do que acontece mesmo. senão, vc pira…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: