Publicado por: diariodebloco | novembro 26, 2010

de colete na cidade

“O segredo do tempo é consumi-lo sem percebê-lo.
É fingir-se infinito para não o vermos passar
É fazer-se contar em anos em vez de momentos
Relógio, despertador, cronômetro, calendário
Tudo engodo para imaginarmos prendê-lo, controlá-lo…”

(Anônimo)

Quarta-feira,
16h30

Os policiais começam a se movimentar de forma curiosa. Ao tentar pedir informação para o inspetor da DH, ele monossilaba algumas coisas. Não ajuda muito, mas dá uma dica ao informar que está com outra ocorrência ali próximo. Outro corpo ligado a um suposto arrastão. Entramos correndo no carro em direção ao próximo fato.

A cidade não para.

16h59

Enfrentamos um trânsito gigante até o ponto, também na Zona Norte. É uma rua residencial, cheia de casinhas amarelas, embora humildes, mas com jardins bem cuidados. Lembro do condomínio onde minha avó tinha uma casa no bairro da Ilha do Governador. A saudade bate ligeiro até o momento em que esbarramos com o comboio da polícia civil. Os mesmos rostos, os mesmos legistas da última hora, desta vez, em um novo caso. Dessa vez, a vítima é um homem de meia idade que tivera seu corpo desovado em um carro roubado, também em um arrastão. A família da vítima está ali, bem próxima da gente. Tentamos uma aproximação, mas eles se mostram arredios. Um deles briga por estar sendo filmado. Pelo estado do corpo da vítima – braço quebrado, marcas de tortura com arame – dá pra ter noção da dualidade entre os criminosos e aquele assassinado.

Deixamos pra lá chegando a muitas conclusões. Enfim.

17h40

Duque de Caxias é um município com maior índice de morte de jovens abaixo de 21 anos no estado. Os dados são de uma pesquisa bem recente das Organizações das Nações Unidas sobre a Baixada Fluminense. A cidade é violenta, sim. Mas tiroteio em pleno centro urbano, onde o asfalto mistura apenas o limite entre a sede da Prefeitura e o Teatro Municipal, já é demais. E é lá que pousamos nossa equipe ao avistarmos policiais fechando as ruas e avenidas num controle militar bem austero. De arma em punho, eles mandam motoristas desacelerarem, no rosto, a expressão de controle e ódio. Estão atrás de bandidos que acabaram de realizar um grotesco tiroteio na cidade. Até uma bomba caseira, dentre muitas daquele dia, teria sido usada contra os prédios municipais. Nosso carro para cantando pneu. Pulamos pra fora vestindo coletes à prova de bala. Paro três segundos para realmente entender que estou usando um colete à prova de balas naquele lugar. Olho em volta e vejo prédios comerciais, inúmeros deles. A parede de concreto revela o coração empresarial de Duque de Caxias. Ok. Passado o lapso momentaneo, corremos entre lojas filmando toda a movimentação. Na mão de uma menina na porta de uma sapataria, não deixo de notar uma folha de papel rabiscada:

“O RIO PEDE PAZ”

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Responses

  1. sabe… quando li todas as materias sobre o rj, meu primeiro pensamento foi vc… e é vc quem está na minha cabeça esse tempo todo. por favor, se proteja.


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