Publicado por: diariodebloco | novembro 21, 2010

reféns – final

O carro não tinha sirene. É verdade. Mas o som forte do motor deixava bem claro quem tinha acabado de chegar. O Batalhão de Forças Especiais do Rio de Janeiro, o BOPE, havia acabado de entrar em cena.

Não me recordo bem se na época se Tropa de Elite já havia estourado nos cinemas ou pelos DVDs avulsos da Uruguaiana. Mas uma coisa era clara. A primeira reação do público foi uma incrível e longa salva de palmas. Os estalos das mãos eram intensos e energéticos. Aquela reação estava engessada numa mistura midiática do livro-filme com a repercussão do caso. O BOPE sempre foi conhecido por lidar com situações em que há reféns em posse de bandidos perigosos. Mas há alguns meses aqueles caras de preto eram uma personificação do heroísmo nacional. É dificil viver em um país onde não há simbolismo o bastante para uma geração. No Rio de Janeiro, o BOPE era a solução do povo que morava em redormas de vidro. O grito dos excluídos da classe média alta que viviam com seus Hondas Civic. No mais, em pleno domingo de manhã, um prédio ser evacuado às pressas por causa de um sequestro era um prato cheio e suculento para os curiosos de plantão. Com a quantidade de gente reunida, qualquer ato falho seria meticulosamente esganiçado. Os homens fardados sabiam disso.

Me esgueirei a enxergar a ação de um capitão que conduzia a ação. Um senhor de aproximadamente 60 anos, com uma boina preta, ditava algumas regras para os policiais. Os caveiras estavam no controle e os convencionais PMs sabiam disso. Deve ser estranho perder o controle quando se é a segurança pública primordial. Pensei, assim que um estalido explodiu nos fundos do prédio. Câmeras voaram para o alto. Fotógrafos explodiam os flashes. Eu, bom, eu apenas fitava o que parecia impossível.

Dois policiais gesticulavam do alto do apartamento, de frente para a praia, atrás dos vidros da janela. Os reféns estavam a salvo e, os bandidos, devidamente imobilizados. A Imprensa tomava os devidos cuidados de sugar os detalhes e as informações dos oficiais. Os telejornais iam ganhando flashes ao vivo sobre toda a história, enquanto outros colegas entravam ao vivo para suas rádios. Alguns minutos depois, a família refém estava na rua, saindo aos passos de um cortejo militar altamente reforçado. Era uma moça e duas senhoras. Sorriam tímidamente enquanto todos por trás do cordão de isolamento gritavam. Notei que um pastor da Igreja Universal que havia chegado para tentar ajudar na negociação dos presos estava atônito. Não resolveu muita coisa.

Naquele domingo, o nosso jornal havia ganhado sim uma matéria com os policiais, os moradores e até o parente de um dos reféns. Eu também havia ganhado muita coisa. Um misto de dever cumprido – no alto do clichê – e uma dor muscular terrível. Mas aqueles homens do BOPE ganharam muito mais. Uma segunda salva de palmas que ecoava pelo bairro.

O barulho da vitória, do reconhecimento e da população bradando.

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Responses

  1. Situação delicada para população civil e cotidiana para os caveiras… é nosso RJ…


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