Publicado por: diariodebloco | novembro 20, 2010

reféns – parte 1

1. 2. 3. Respira. 1. 2. 3. Respira.

O folêgo já ia sumindo depois de 11 quilômetros. O dia estava lindo, com um sol senegalês e um céu incrivelmente azul contemplando toda a cidade. O dia era perfeito para se descansar. Era domingo e, ora bolas, eu não estava de plantão. Naquela época eu mantinha meus raros dias em que não estava na labuta aproveitando os segundos de uma corrida pela orla. Viver em cidades praianas nos permite essas bobas felicidades. Meus pés inchados dentro do tênis iam descendo a ladeira ao compasso das palavras de Michael Bublé.

“Baby, don’t pretend that you don’t know it’s true
Cause you can see it when I look at you…”

E então, a sensação. Aquela mesma sensação de todas as horas em que me pegava fitando o inesperado. A passada havia me levado novamente para o largo calçadão da praia e do outro lado da rua, uma multidão assustada. A gente pensa em muitas coisas antes de presumir a verdade de um fato. Uma multidão qualquer na cabeça de um leigo pode ser desde um acidente de carro até um jogo de capoeira. Pra mim era, simples e basicamente, aquela sensação.

Ainda suado me aproximei interpretando o que ia vendo. Um prédio próximo havia sido cercado por carros de polícia e dezenas de moradores, envoltos ainda em seus pijamas, estavam aglomerados atônitos na frente da portaria. Aproximei de alguém e perguntei.

– O que houve?
– Reféns, amigo. Tem uma família refém em um dos apartamentos!

Acho que demorou cinco minutos entre o meu banho em casa e estar novamente naquele lugar. Segurando um gravador e o famigerado bloco de anotações, me aproximei de um PM que fazia a segurança do perímetro da portaria isolada. Meu cabelo molhado chamava a atenção.

– Quantas vítimas?, perguntei tentando soar o máximo possível concreto porque estava ali em pleno domingo no limiar do meu vício.
– São quatro. Ou três. Não temos certeza.

Dei dois passos além do cordão de isolamento.

– Você não passa.
– Imprensa.
– Tanto faz.
– Eu vou entrar ao vivo na Rádio! Por favor, me quebra o galho.
– Amigo, você que sabe. Não é seguro.

Lá estava eu no máximo da minha insegurança tentando driblar a simpatia militar. Ganhei o acesso com a condição de que uma bala perdida de um ladrão de prédio na minha testa poderia ser um prêmio extremamente feliz. A portaria estava tomada por policiais que entravam e saíam. Então surgiu o resto da Imprensa e uma sirene bem conhecida.

continua.

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