Publicado por: diariodebloco | novembro 6, 2010

o vale do sistema

Dia 5 de novembro talvez fique na memória.

Ou não. Tudo depende do Jornalismo. Ou não. Talvez dependa mais de mim, ou das circunstâncias do factual. A sexta-feira foi o dia em que Tropa de Elite 2 brincou de me mostrar onde moro, onde vivo, com que lido. A história me fisgou em muitos momentos pela dramaturgia bem talhada, mas dois momentos cruéis na ficção em especial já foram cenários bem conhecidos na nossa realidade. A morte de um jornalista e os bandidos na favela. Bandido é bandido. Seja miliciano, seja traficante. Aqui poderia entrar a ótica da política, com os marginais do pleito público, mas minha condição é me ater ao tráfico de drogas.

24 horas antes nossa equipe de reportagem subia uma das maiores ladeiras que eu vi na minha vida. Vá, não vi muitas de fato. Essa subida bem íngreme eu já bem conhecia porque estive nela alguns meses atrás contando mortos após um deslizamento bem midiático. Bingo para quem leu Morro dos Prazeres nas entrelinhas. Nossa missão era mostrar um impasse entre moradores e a Prefeitura em relação às casas que seriam demolidas, o recebimento do aluguel social e todo o imbróglio municipal. Microfone e câmera ligados, equipe concentrada. De repente, um barulho de moto rasgando ao longe.

Segundo depois pude contar seis tipos variados de traficantes motorizados circulando por nós numa retumbante ameaça velada. Não falavam conosco, apenas, passavam. Eram garotos no máximo dez anos mais novos que eu, em garupas duplas, às vezes individuais. Seguravam uma, às vezes, duas pistolas na cintura retendo toda a rispidez que lhes convém. As motos mais caras que o meu carro. Os rostos presos numa expressão vazia, sempre atrás de um óculos escuros e um boné engraçado.

“F-u-d-e-u”, pensou eu e nossa equipe em um uníssono mental.

Lá no fundo – bem no fundo da nossa positividade dramática – que o risco de algo acontecer era bem pequeno naquela situação. A presidente da Associação de Moradores estava conosco, ela já havia devidamente avisado que iriamos gravar no Morro. Traficantes menores não tomam iniciativa sem ordens claras de quem manda no pedaço. Mas mesmo assim, eles fizeram questão de cruzar conosco umas trinta vezes nos quarenta minutos que estivemos dentro do complexo. O Morro dos Prazeres é um vale que teremos que visitar muitas vezes, mas nunca sabe-se se por bem ou por mal. Não se sabe se no futuro será um novo deslizamento, ou moradores brigando por justiça social.

Mas motos sempre estarão lá, porque o sistema, amigo, é foda.

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Responses

  1. Tropa de Elite 1 e 2, são filmes que me comoveram e motivaram até. É impossível sair do filme sem ficar contagiado com toda aquela atmosfera, até porque é próxima demais da nossa realidade. É quase como uma denuncia. Mas o enredo, o roteiro e o timing do filme nos permite até um certo distanciamento. Não sei. É foda. Dá pra perceber que as coisas estão sólidas de uma maneira tão antiga que parece impossível desfazer esse sistema. E se eu me sinto assim, imagino você que vive ainda mais perto disso.

    Eu nem sei o que dizer. Claro, me orgulho muito do seu trabalho e admiro eternamente. Sei que faz bem pra população… é fantastico. Mas, eu confesso que tenho medo também. E pior. Eu tô longe e não há nada que posso fazer. E no fundo, nem ninguém. Estamos aí. C’est la vie. Ou não.


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