Publicado por: diariodebloco | novembro 2, 2010

paz aos poucos

Faz tanto tempo, mas não me importo em voltar nesse capítulo.

No “day after” da implantação da Unidade de Polícia Pacificadora no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, nossa equipe foi até o local medir sua temperatura. Eu nunca havia entrado na favela até aquele dia. Na entrada do morro, logo pela pracinha num dos acessos, relembrei muito dos posts escritos logo no início do blog. A cena de guerra estava novamente presente ali, porém, por outro ângulo. Um referencial mais sombrio. O ambiente estava tomado por dois elementos cênicos bem paradoxais. Um, dezenas de homens do BOPE fortemente armados, seus fuzis e três blindados repousando num conjunto sinistro de veículos estacionados. Outro, homens livres bebericando cerveja num bar, que por sua vez soava uma samba terrivelmente alto e melódico. Contraste. Paz e guerra. Tudo ali. Como eles dizem na gíria, “junto e misturado, mano”.

Gravamos a passagem que citava exatamente o oportuno desafio da Secretaria de Segurança do Rio em cercar os morros mais complexos da alça Zona Sul-Zona Norte, entre a orla e a Grande Tijuca. Pro público, apenas uma informação. Na política, o promissor debate da segurança pública, ainda mais numa cidade como o Rio. No exato momento em que a câmera registrava as palavras do OFF, um estrondo.

– BLAM!

Voltei minha atenção para trás como se procurasse o pior. Quando notei, um portão batido violentamente contra uma parede. De dentro de um barraco saiu um sujeito moribundo e embriagado. Careca, tatuagens medonhas, roupa estranha. Seus olhos vermelhos fitavam nossa equipe e num compasso constrangedor, veio cambaleando aos poucos até nós. Parou lentamente ao lado do microfone, olhou-nos de cima a baixo fazendo surgir um ódio conhecido. Enxerguei ali raiva, enxerguei revolta, enxerguei desespero. De repente, virou-se e desatinou a caminhar em direção ao bar. Segundos lentos. Minutos muito mais. O ambiente no Morro dos Macacos ainda estava inflamado. Pelo radinho, mudamos a rota. Centenas de homens do BOPE e o espírito de paz ainda acordando. Aos poucos. Mas acordando.

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