Publicado por: diariodebloco | abril 11, 2010

vida alheia salvar

Morro dos Prazeres, Santa Teresa.

No dia em que subimos Santa Teresa em busca de informações sobre os mortos, vi muitos bombeiros circulando no local. Eles não paravam, iam pra lá e pra cá a todo momento segurando sempre alguma coisa. Ora uma pá, ora algum objeto repleto de lama. As horas de cobertura da nossa equipe no Morro dos Prazeres foram imensas, o que me ocasionou algumas situações adversas. Em determinado momento esbarrei em um grupo de bombeiros almoçando. Homens e mulheres cansados, se alimentando em quentinhas. Eles estavam em volta de um carro picape da corporação cheia de garrafas de água mineral e isopores com comida. No raro momento de pausa nos trabalhos de busca dos corpos, eles conversavam, riam e esqueciam por minutos o cheiro da morte e da destruição à sua volta.

Me aproximei e puxei conversa, sem caneta, bloco de anotação ou microfone. Apenas um jovem ávido por mais histórias. Uma bombeira loira, de no máximo 25 anos, comia, pelo que pude notar, arroz com frango. Ela conversava com um colega de forma descontraída. Perguntei sobre a Força Nacional que não chegara até então à cidade e ela enfezou a cara.

– Pra que eles vem pra cá?! Eu hein.

Entendi a reação. Mudei de assunto rapidamente. Falamos um pouco sobre os trabalhos, a tristeza de estar ali, da dificuldade da chuva que chegava a todo momento e dos piores momentos. De forma leve, ouvi a história mais surpreendente daquele dia.

Sargento Basílio trabalhou em praticamente todas as buscas iniciais naquela semana. Ele estava no Morro do Borel, na Tijuca, quando a terra havia descido com força durante a chuva. Ele trabalhava com mais cinco bombeiros em um local de difícil acesso. Recolhiam de tudo dos escombros enquanto iam à caça de sobreviventes. Retiravam com as mãos da lama abajures, quadros, colchonetes, travesseiros, panelas, ursos, tijolos quebrados, vasos de planta. Basílio recebia informações rápidas em forma de gritos de familiares na tentativa de achar as vítimas. Do alto, a água ainda caía com força. Um GPS automático se formava em sua mente. O militar cavava um buraco em volta de uma espécie de telhado quando um estrondo se ouviu. O barulho, como um trovão, veio junto do tremor. A terra se deslocou como uma avalanche em baixo dele e uma camada inexplicável de terra tomou todo o seu corpo.

Basílio não abriu os olhos. Não dava. A primeira coisa que passou em sua cabeça foi: Morri. O sentimento simples e rápido, tenaz demais na morbidade da situação, estacionou em sua cabeça enquanto mais gritos começaram a ecoar lá em cima. Braços, pernas e tronco estavam imobilizados, numa posição como se tivesse caído na água, o corpo aberto, mas imóvel. A terra gelada encostava em toda a sua face. Úmida, parecia um cobertor espesso e frio.

Não sei o que passou-se na cabeça de Basílio durante aqueles minutos em que ficou soterrado. Mas o sargento viveu algo que quase 300 pessoas – feridos ou mortos – passaram durante as 70 horas de chuva, em diversos pontos do estado. O bombeiro se emociona, apoia o talher e dá uma risada tentando afastar a amargura. Ele me olha e sorri:

– É rapaz, com uma dor na costela danada.

Ele se levanta, e junto da menina loira, correm em direção à terra vermelha. Hora de cavar mais. Hora de se arriscar mais uma vez e mais uma vez e mais uma. Até o fim.

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Responses

  1. Tão orgulhosa de tu!


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